se não for coisa pior
Em crónica no Público de hoje, embora suponha que num sentido irónico e veladamente crítico, a jornalista Leonete Botelho escreve designadamente (sublinhados meus): «Os portugueses são o orgulho deste Governo. Poucos executivos na Europa conseguiriam aplicar esta receita de austeridade com tamanha paz social como a que proporcionamos ao espectáculo político mundial. É preciso aprovar um orçamento (dois, com o rectificativo) cujo resultado líquido é menos um quinto do rendimento para as famílias ? O PS resmunga, mas subscreve. É preciso mudar as leis laborais e caminhar para instituir a precariedade como regra geral do trabalho? A UGT refila, mas subscreve. A CGTP marca uma greve geral ? O povo critica os grevistas [portanto, os grevistas não são povo !, concluo eu], a polícia carrega sobre os manifestantes e nada mais faz história.(...) Os portugueses estão totalmente dispostos a fazer sacrifícios , porque é pelo sacrifício que se redimem os pecados. A austeridade foi elevada à categoria de fatalidade de que só sofrimento salva . Há algo de sagrado neste desígnio, e os portugueses estão dispostos, disponíveis e à disposição. Do Governo, da troika e dos mercados. Amén.».
Feita honestamente esta longa citação, só me apetece dizer três coisas breves (que, por serem assim, revelam aliás alguma falta de paciência):
1. A mim, não me passa pela cabeça proclamar que a contestação social esteja ao nível da excepcional e nunca vista gravidade dos ataques e agressões que a maioria da população tem sofrido assim como não ignoro, nesse âmbito, todos os reflexos negativos da chamada «psicologia de crise».
2. Mas isto é uma coisa e outra completamente diferente - porque preconceituosa, cega, ligeira e acabando por levar a água ao moinho da política que se parece criticar- é falar de uma «tamanha paz social».
3. Por ser sábado, não me apetece fazer a lista de todos as lutas, acções de protesto, manifestações e greves ocorridas contra a política e medidas deste governo e também não me apetece fazer a longa lista daquelas a que o Público não ligou nenhuma ou menorizou.









