29 novembro 2016

Que grande lata !

Rangel no seu melhor

Imodéstia à parte, nem precisava de ler o artigo de Paulo Rangel hoje no Público para saber que argumento fundamental iria usar para tentar justificar um tão escabroso título: nem mais menos que os EUA são uma República Federal, daí o Colégio Eleitoral e, no fundo, uma espécie de eleição indirecta  Presidente. Mas tem azar Paulo Rangel: é que, por exemplo, o Brasil também é um República federal e não consta que lá alguma vez o segundo mais votado tenha sido eleito Presidente.  Bem no fundo, Paulo Rangel, tal como outros, refugia-se num formalismo seco onde a vontade real e maioritária dos votantes é um pormenor a esquecer depressa, onde o principio fundador de um homem - um voto é esmagado por obsoletas e velhas regras com 186 anos e através do qual aqueles que atiram para o lixo dois milhões de votos são capazes depois de perorar candidamente sobre o desencanto dos cidadãos com a política.

28 novembro 2016

Ben Jennings no «Guardian ou...

... o cartoonista que lembrou
o que muitíssimos quiseram
esquecer: as centenas de tentativas norte-americanas de assassinato
de Fidel Castro


26 novembro 2016

Figura memorável

Hasta siempre, Fidel !

A esta hora, em tons e conteúdos diversos, está quase tudo dito sobre a morte de Fidel Castro. Mas um daqueles portugueses que desde cedo acompanhou solidaria e apaixonadamente a revolução cubana não pode deixar de exprimir a sua tristeza pelo desaparecimento deste grande revolucionário do século XX, deste corajoso e íntegro semeador de mudanças, sonhos e esperanças, deste líder que levou solidariedade internacionalista a vários pontos do planeta, que comandou a resistência patriótica a um embargo infame e que restituiu ao seu povo esse bem superior e inalienável que é o sentimento enraizado de dignidade e independência nacional. O seu exemplo ficará tempos adiante.

Fidel
Por Juan Gelman
Del poemario “Gotán” (1962).





dirán exactamente de fidel
gran conductor el que incendió la historia etcétera
pero el pueblo lo llama el caballo y es cierto
fidel montó sobre fidel un día
se lanzó de cabeza contra el dolor contra la muerte
pero más todavía contra el polvo del alma
la Historia parlará de sus hechos gloriosos
prefiero recordarlo en el rincón del día
en que miró su tierra y dijo soy la tierra
en que miró su pueblo y dijo soy el pueblo
y abolió sus dolores sus sombras sus olvidos
y solo contra el mundo levantó en una estaca
su propio corazón el único que tuvo
lo desplegó en el aire como una gran bandera
como un fuego encendido contra la noche oscura
como un golpe de amor en la cara del miedo
como un hombre que entra temblando en el amor
alzó su corazón lo agitaba en el aire
lo daba de comer de beber de encender
fidel es un país
yo lo vi con oleajes de rostros en su rostro
la Historia arreglará sus cuentas allá ella
pero lo vi cuando subía gente por sus hubiéramos
buenas noches Historia agranda tus portones
entramos con fidel con el caballo

Porque hoje é sábado ( )

Hristo Vitchev





A sugestão musical deste sábado vai
para o guitarrista de jazz búlgaro Hristo Vitchev.

25 novembro 2016

24 novembro 2016

Contagem a chegar ao fim

Encerrando o assunto,
uma observação amarga





Sim, despeço-me deste assunto, com uma observação amarga. Trata-se de afirmar que nunca tive nenhuma dúvida de que Hillary é uma belicista, uma lídima representante dos interesses de Wall Street e do «establishment» e que isto  seria sempre verdade, fossem quais fossem os seus resultados eleitorais.

O que me chocou profundamente foi ver sectores e personalidades de esquerda, em Portugal e nos EUA, a crucificarem H. Clinton invocando a sua «estrondosa derrota eleitoral», lembrando «o vendaval Trump» e alinhando noutras fantasias quando ela acaba por ter mais dois milhões de votos que Trump que é o único dado que exprime a real vontade dos americanos que foram às urnas. É que nenhuma crítica política lúcida ou promissora se pode basear em premissas falsas.

E assim, seja para equiparar Hillary a Trump ( o que, no plano da política interna é um absurdo), seja alegadamente para desacreditar o «sistema», muito boa gente de esquerda, ao desprezar os votos populares nas presidenciais norte-americanas, perdeu uma oportunidade soberana de pôr em evidência uma fraude congénita da «grande democracia americana».

22 novembro 2016

Jornalismo ou...

... o estado da arte

Em vez de chorarem
pelo passado, façam notícias





Na institucional Faculdade de Direito de Lisboa estiveram reunidos, há duas semanas, 300 advogados de várias partes do mundo, membros da Associação Internacional de Juristas Democratas. Isto, só por si, seria uma notícia, mas, não sei porquê, não a li em lado algum.
Nesse fim de semana a dita associação, presidida pela norte-americana Jeanne Mirer, que há mais de 70 anos luta pelo respeito universal da lei, recebeu a informação de que o governo turco decidira proibir, durante três meses, a atividade da Associação de Advogados Progressistas Turcos. Isto, só por si, seria uma notícia, talvez pequena, admito, mas capaz de honrar qualquer linha editorial. Não a li em lado algum.
O presidente da Associação de Advogados Progressistas Turcos, o dr. Selçuk Kozagaçli, encontrava-se em Lisboa a participar com colegas do seu país na conferência que, ironicamente, celebrava em Lisboa os 50 anos dos primeiros pactos das Nações Unidas sobre direitos humanos. Isto, só por si, seria uma notícia, pequenita, certo, mas relevante em qualquer jornal. Não sei porquê, não a li em lado algum.
Durante os três dias da conferência Kozagaçli foi coligindo informações sobre o que se estava a passar com mais de três mil advogados turcos. Eles contestavam as arbitrariedades do regime do presidente Erdogan, cometidas ao abrigo de um estado de emergência de legalidade duvidosa. A sede da associação foi entretanto assaltada pela polícia de choque, inúmera documentação apreendida, vários advogados presos. Isto, só por si, seria uma notícia, talvez pequena, admito, mas capaz de honrar qualquer jornal, de esquerda ou de direita, independente ou engajado. Mas não, não a li em lado algum.
Kozagaçli recebeu, num computador emprestado por uma colega portuguesa, fotografias do assalto policial, imagens das detenções dos colegas e um aviso: "Se voltarem serão presos." A Associação Portuguesa de Juristas Democratas, co-organizadora da conferência, avisou vários jornalistas portugueses sobre estes acontecimentos e manifestou disponibilidade para dar mais informações. Não sei porquê, não encontrei um texto sobre o tema.
No domingo, dia 13 de novembro, os juristas turcos que passaram esse fim de semana angustiante em Lisboa regressaram a Istambul convencidos de que se encaminhavam para a cadeia. E assim foi para alguns deles, incluindo uma mulher, Fatma Demirer.
Tudo isto li, ouvi e vi, com textos, sons, fotos e vídeos, no Facebook - bastou-me receber uma partilha. E na comunicação social?... Nada. Não sei porquê.
Sei, porém, a razão por que o Facebook está, todos os dias, a liquidar a influência da imprensa: porque ela merece.

20 novembro 2016

Uma triste notícia

Um modesto adeus a
Maria Eugénia Varela Gomes



Neste dia cinzento, chega de repente a notícia da morte aos 90 anos de Maria Eugénia Varela Gomes, uma incontornável figura da luta antifascista e da fidelidade aos ideais de Abril, uma mulher de antes quebrar que torcer que tocou de forma inesquecível todos os que a conheceram, que teve uma vida muito sofrida mas que nunca se deixou afundar na mágoa e no desgosto e que me deu a honra da sua amizade. Um forte abraço de solidariedade para o João Maria e para as suas filhas.